Animatrix

Animatrix é uma coletânea de 9 curtas de animação que envolveu, durante seu processo de realização alguns dos mais expressivos nomes da animação mundial e que, mesclando efeitos de computação gráfica e o estilo anime japonês, traz histórias ambientadas no universo Matrix apresentado na trilogia para o cinema.
Não sou, nem de longe, uma profunda conhecedora de animes em geral, mas arrisco dizer que Animatrix cumpre muito bem o seu papel. Embora eu não acredite que a série possa ser considerada um marco inovador dentro do estilo, não dá para negar que as produções foram caprichadas, tanto na parte técnica quanto em seus enredos. De fato, o universo Matrix é complexo e oferece possibilidades de ótimos resultados àqueles que souberem explorar toda esta riqueza. Os envolvidos na produção de Animatrix parecem ter tido esta felicidade.
Eu havia pensado, a princípio, em escrever um post sobre a série como um todo, mas a diversidade e a vontade de comentar sobre algumas particularidades me fizeram mudar de idéia, resolvi fazer alguns comentários sobre cada curta em particular. E aqui faço um alerta: se você ainda não assistiu, mas pretende, talvez seja melhor deixar a leitura para depois, os comentários abaixo poderão conter spoilers!!
Final Flight of the Osiris (O Vôo Final de Osiris)

Escrito pelos Irmãos Wachowski e dirigido por Andy Jones o episódio mostra a luta da tripulação da aeronave Osíris para atravessar a barreira de um exército de sentinelas e transmitir uma mensagem de suma importância a Zion.
A história se passa em algum momento entre Matrix e Matrix Reloaded e é o episódio que possui as mais eletrizantes cenas de ação, tanto no minutos inicias - a bela e sensual luta de espadas entre os personagens Jue e Thadeus no simulador - quanto nos ataques dos sentinelas contra a aeronave.
Os personagens foram criados pela mesma equipe de Final Fantasy - The Spirits Within e são baseados em CG, com um ótimo resultado especialmente no que diz respeito à expressividade. Ao contrário da secura melancólica e contida que podemos conferir em Final Fantasy, os personagens principais de “Osiris” são carismáticos e conseguem tocar o espectador mesmo nas pegadas mais sutis.
Andy Jones possui no currículo trabalhos de direção e supervisão de animação em filmes como Godzilla, Zathura e mais recentemente Superman Returns. Atualmente trabalha na direção de animação de Avatar, do diretor James Cameron, previsto para 2009.
The Second Renaissance Part I & II (O Segundo Renascer - Partes 1 & 2)

O episódio, dividido em duas partes, é apresentado como um arquivo de Zion que explica a origem da Matrix, como se deu a queda da espécie humana e a ascensão das máquinas, descrevendo os passos da guerra e elucidando a culpa da própria humanidade no processo que resultou em sua ruína. De todos, é o episódio que mais carrega o espírito original do universo Matrix, remete justamente ao clima assustador e fascinante que conquistou tanto público na primeira parte da trilogia.
Também escrito pelos Wachowski e dirigido por Mahiro Maeda, “Renaissance” mostra um trabalho tecnicamente mais simples do suas companheiras de coletânea, mas nem por isso menos impactante. As cenas de violência são fortes, absurdas, mas mesmo assim, reconhecíveis. Acho que é este é o aspecto que torna tudo mais amedrontador: você sente que tudo aquilo pode não ser só ficção, porque a gente vê, no dia-a-dia, cenas e situações idênticas neste que acreditamos ser o nosso mundo. Mais do que um relato de fatos, “Renaissance” é um convite à reflexão.
Mahiro Maeda é desenhista de mangás e animador, conta com trabalhos de produtor, diretor e uma extensa lista de participações em processos de produções do gênero. Dentre seus trabalhos de maior destaque estão o roteiro e a direção de Ao no roku gô (Blue Submarine N.º 6) e a construção dos personagens “Anjos” da fantástica saga de Neon Genesis Evangelion.
Program (Coração de Soldado)

O episódio, escrito e dirigido por Yoshiaki Kawajiri, é ambientado dentro de um programa de simulação no Japão do período feudal e se desenrola com base no conflito de uma lutadora de Zion, que é pega de surpresa, quando seu amante lhe propõe deixarem a situação infausta em que vivem, traindo seus companheiros de luta para desfrutar de dias felizes juntos na Matrix, esquecendo toda a verdade que conhecem.
As cenas de ação são empolgantes, dentro do estilo mais… como posso dizer… “tradicional” (??) dos animes japoneses, cenários inefáveis com um visual totalmente diferente daquele futurista Matrix-related, que neste ponto da série já tomou conta dos nossos sentidos. Com uma boa disposição da sequência ação versus conflitos internos, o curta consegue dosar bem e expor de maneira satisfatória os aspectos físicos e psicológicos da decisão que a personagem precisa tomar, bem como a força de seus valores próprios neste processo.
O desfecho, em verdade, não me deixou muito satisfeita. Esse papo de “parabéns, isto foi apenas um teste e você provou que merece confiança”, para mim, é velho, batido e frustrante.
Yoshiaki Kawajiri dirigiu a série Vampire Hunter D (ou “Banpaia hantâ D“, como diriam os japoneses… haha, eu “si-divirto” com essas!) e mais recentemente, a animação Highlander: The Search for Vengeance lançada em 2007 pela Imagi Animation Studios.
A Detective History (Uma História de Detetive)

O episódio escrito e dirigido por Shinichiro Watanabe nos apresenta o detetive particular Ash, que desiludido com sua própria condição, cansado de ser contratado apenas para investigações conjugais de infidelidade, está prestes a desistir de sua profissão quando recebe a proposta de descobrir a trilha do famoso hacker Trinity em troca de uma suntuosa quantia em dinheiro.
O visual de “Detective” remete totalmente ao estilo Film noir, aquele que caracterizou os charmosos romances de suspense policial nas décadas de 30 e 40, mantendo inclusive a atmosfera criada pela junção de muitos personagens deslambidos em um mundo onde nada é o que parece. Um trabalho muito bonito e bem caracterizado. A trama, embora não seja um exemplo master de originalidade, apresenta-se interessante e envolvente.
Shinichiro Watanabe é conhecido pelos trabalhos nos animes Samurai Champloo e Cowboy Bebop (momento confessionário: eu adorava desenhar a Faye Valentine… =P).
Beyond (Além da Realidade)

Procurando por sua gatinha desaparecida, a jovem Yoko acaba descobrindo o que na verdade é um “bug” no sistema Matrix: uma casa abandonada, com fama de mal-assombrada, onde coisas fantásticas acontecem, pessoas são capazes de voar, o tempo parece não passar, chove dentro dos cômodos e quase tudo parece possível, como em um sonho. É o reduto da molecada da vizinhança, que vêem na casa o seu lugar precioso, onde ainda podem sonhar e fantasiar em contraste à vida dura na região pobre em que vivem.
Escrito e dirigido por Koji Morimoto, Beyond é o episódio que nos apresenta o lado mais esguio do surrealismo desse mundo Matrix. Delicado e até poético, o curta conduz e envolve o espectador de tal maneira que a gente sente, junto com as crianças, a tristeza de ver seu refúgio destruído com a chegada dos “técnicos” da Matrix que vêm para consertar o bug. As cenas finais, quando Yoko se aproxima da nova construção, já “debugada”, que toma o lugar da antiga, com o olhar perdido e semblante de tristeza, é de cortar o coração.
Eu, particularmente, não conheço nada a respeito de Koji Morimoto. Li apenas algumas referências a seu trabalho como diretor em Memories que por sua vez parece ter mais repercussão pelo fato de carregar o nome de Katsuhiro Otomo (de Akira) no roteiro, do que pelo trabalho de direção…
Matriculated (O Robô Sensível)

Escrito e dirigido por Peter Chung, Matriculated mostra a rotina de trabalho de um grupo de rebeldes que captura robôs na Terra desolada reprogramando-os para que atuem ao lado dos humanos. A maior parte da sequência ilustra esta conversão, quando adentramos um tipo de programa de simulação surrealista, criado para confundir os robôs em um processo que lembra uma lavagem cerebral.
O visual fascinante, multi-cores e geometricamente trabalhado ao extremo, em parte compensa o enredo pouco trabalhado. A história poderia ter sido um pouco melhor trabalhada, ter mais profundidade, mas não é o que acontece. É um desses casos em que os efeitos visuais foram priorizados em detrimento do que poderia ser um ótimo conto matrixiano.
A carreira do coreano Peter Chung inclui seu trabalho como roteirista e diretor da série animada Aeon Flux e a construção das características de personagens de animação em The Rugrats (como é mesmo o nome do desenho aqui no Brasil?) e Transformers, já dirigiu um sem-número de comerciais e mais recentemente, esteve na equipe de animação do curta The Chronicles of Riddick: Dark Fury.
World Record (O Recorde Mundial)

Dan é um corredor que no passado foi acusado de dopping e, desde então, ficou obcecado por quebrar seu próprio recorde mundial para provar ao mundo e a si mesmo sua capacidade, mesmo sabendo que se falhasse estaria acabado para sempre e jamais voltaria a ter o apoio das pessoas ao seu redor. A obsessão, a força de vontade descomedida e o esforço físico extremo que desafia seus próprios limites, acabam levando Dan para além de seu objetivo: a alta concentração de adrenalina no momento da corrida é tão brutal que ele acorda da Matrix e por alguns segundos consegue ter a visão do mundo real.
O episódio escrito por Yoshiaki Kawajiri e dirigido por Takeshi Koike aborda um dos aspectos subsidiários deste universo: somente os “escolhidos” podem sair da Matrix, mas em condições muito especiais, por meios particulamente singulares, algumas pessoas conseguem este feito. É uma história que trata mais do poder da força de vontade e do desejo humano do que as características do cosmo “matrixiano” em si, mas não deixa de ser agoniante em algumas passagens. As cenas que mostram os extremos do esforço físico superados pelo personagem me fizeram morder os lábios, literalmente, até sangrar…
Kid’s Story (Era Uma Vez um Garoto)

O episódio, que conta com as vozes de Keanu Reeves, Lawrence Fishburne e Carrie-Anne Moss, foi escrito e dirigido por Shinichiro Watanabe e conta a história de Kid - o chatinho arreliento de Matrix Reloaded - mostrando como ele conseguiu sair da Matrix para se juntar aos humanos de Zion. Adolescente isolado, Kid sempre questiona a realidade ao seu redor e desconfia da verdade sobre Matrix. Um dia, na sala de aula, ele recebe uma ligação de Neo no celular alertando-o para que fuja pois os inimigos já “sabem o que ele sabe”, mas ele vai descobrir que encontrar a saída é muito mais difícil do que parece.
É mais uma história que busca completar as lacunas deixadas pela trilogia, na questão da construção e vida de seus personagens.
A técnica utilizada para os efeitos visuais é muito parecida com o estilo da rotoscopia, onde a filmagem de modelos vivos é utilizada como base para o desenho do movimento a ser utilizado. Embora a técnica seja desprezada por muitos animadores, eu gosto do resultado. Alguns longas muito bons e muito bem produzidos foram criados em cima disso, eu citaria Waking Life como exemplo. Em “Kid’s” o apelo visual não conta tantos pontos, mas ainda assim eu não diria que prejudica o trabalho.
The Animatrix
The Animatrix, 2003
- Direção: Vários
- Origem: Japão, Coréia do Sul, EUA
- Gênero: Animação / Ficção Científica
- Elenco Principal: Vários
- Site oficial: http://www.intothematrix.com/
- Cotação:












marcelo alves
em 29/05/2008 às 16:32h
Pequena correção : O link de Cg refere-se a uma linguagem de programação de shaders, não a Computação Gráfica. Se bem que todas as nove animações de Animatrix foram feitas em computadores, se não me engano.
E The Second Renaissance não seria traduzido melhor como “A Segunda Renascença”? Pelo menos faz mais sentido historicamente.
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Luma Kimura
respondeu em May 29th, 2008:
Ok, vou retirar o link até porque para mim não faz diferença nenhuma, hahahahah, eu não entendo nada do assunto o link foi indicado. =D
E a tradução, bem, tava assim no DVD.
[]s
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Srta. Bia
em 30/05/2008 às 00:24h
Menina, você precisa se inscrever no BloggersCut, pois praticamente todo dia tem resenha de filme por aqui ;-).
Adorei Animatrix! vi lá na época do lançamento do matrix mesmo e é um dvd que mantem-se firme na minha lista de desejos. Meus preferidos são o Segundo Renascer (principalmente pela cena de cavalgada) e O Recorde Mundial. Confesso que achei esses episódios muitos melhores do que as duas sequencias do filme. Mas o mais legal de animatrix é perceber a quantidade de bons produtos que um filme pode resultar. Pois o filme, o animatriz, o jogo estavam todos conectados, haviam pistas em todos que esclareciam brechas.
Achei que isso fosse perdurar em outros filmes e não só em copos e cadernos promocionais.
Último post de Srta. Bia: Editorial: xepa.
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Luma Kimura
respondeu em June 1st, 2008:
Oi, Bia!!!
Olha só, eu não conhecia esse BloggerCut, vou conferir!
Por algum tempo eu achei que a coisa ia render mais também, mas apesar de ter sido uma certa repercussão, eu acho que foi muito menos do que imaginava…
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marcelo alves
em 30/05/2008 às 13:18h
Bom fizeram uma segunda tentativa em Lost, não? Embora não acompanhe, já ouvi várias histórias que o blog, o jogo e a série estão interligadas.
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Luma Kimura
respondeu em June 1st, 2008:
Anh… Lost? Hein?
É sobre o comentário da Bia que você está falando?
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Cindy Dalfovo
em 13/06/2008 às 16:41h
Deu até vontade de desenterrar meu DVD de Animatrix para ver de novo… xD
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Luma Kimura
respondeu em June 13th, 2008:
Olha só, você tem o DVD? Este é um que eu teria na minha coleção… se tivesse uma coleção! Hahahha!
Obrigada pela visita, querida!
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