Os ipês amarelos e a insustentável leveza dos dias
Notei ontem: os ipês amarelos do Parque Ecológico já estão florindo.
Eu estava voltando mais cedo para casa, por causa de uma manutenção efetuada pela CPFL na rede elétrica, o prédio da Prefeitura ficou sem energia da 12h às 17h e nós, funcionários, fomos dispensados.
Céu azul.
Vidros abertos.
Vento no rosto.
Cheiro de pó.
Calor sem umidade.
E tudo, de repente, tão bonito!
A sensação era de que há muito, muito tempo eu não tinha a oportunidade de voltar para casa tranquilamente, sem a pressão histérica do relógio incomplacente anunciando o tempo “perdido” a cada segundo de avanço dos ponteiros.
É cruel perceber, quase com um choque, que eu me deixei sucumbir. Humilhante ter que admitir que estou atolada nas contradições de meus próprios discursos.
Sempre gostei de dirigir devagar. Sair do trabalho contemplando o pôr-do-sol, observando as pessoas, acompanhando no caminho de todo dia as mudanças de estações.
Agora caio de joelhos na realidade de que estou deixando a leveza dos dias passar em branco, tão encarcerada em meus problemas e preocupações que estou esquecendo de mim, do gosto de viver. Faço, todos os dias, o mesmo caminho pela marginal do Parque porque gosto de passar por lá. Mantive o trajeto mas não vi a evolução da luta dos ipês para tingir, de amarelo-vibrante, a paisagem.
Setembro chegou e eu não senti o ano passar. Sim, eu vi passar, não poderia dizer o contrário quando sequer posso enumerar tudo o que poderia ser considerado “marcante” neste ano tantas foram as ocasiões, mas eu não estou vivendo tudo isso. Dormindo mal, acordando cansada. Reclamando do cansaço e mantendo-o por isso.
…Luma??
Eu sei, mas não devia
[ Marina Colasanti ]
Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.







Devaneios Aleatórios
em 06/09/2007 às 00:34h
Lama…
É cruel perceber, quase com um choque, que eu me deixei sucumbir. Humilhante ter que admitir que estou atolada nas contradições de meus próprios discursos.
Escrito em: 06/09/2007
……
Carlos E. Bonini
em 06/09/2007 às 10:11h
Ótimo, ótimo, ótimo!
Minha sala aqui no trabalho tem um janelão enorme de onde dá pra ver até um pouquinho do mar. Mas esses dias eu me dei conta de que eu pouco olho pra fora, tão centrado que estou sempre. Não me permito sentir o tempo passando.
Anteontem eu notei, finalmente, como o céu estava lindo em certo momento da tarde. E fiquei bobo, a olhar pra janela e comentar a baleza de alguns raios de luz do Sol escapando entre as nuvens. Valeu a semana (ou o mês).
[ Responder a este comentário]
Cris
em 06/09/2007 às 11:46h
Oi Luma!!!
É triste mas é verdade… Se bem que, agora que ainda estou em casa, tenho olhado mais para os lados que antigamente…
Os ipês roxos já passaram, vieram mais cedo este ano e agora há os amarelos florindo.
Bom feriado!!!
Beijos
[ Responder a este comentário]
Luma Rosa
em 06/09/2007 às 12:31h
Há tempo pra tudo! Até a falta de tempo existe para que seja valorizado! Se tem o tempo contado, não pire, não pense! É melhor deixar de fazer algo para que sobre um pouco para você! Beijus
[ Responder a este comentário]
Mário
em 06/09/2007 às 15:41h
Esse texto da Marina diz tudo. Acho-o maravilhoso e muito real. Cada dia mais real.
[ Responder a este comentário]
Phil Souza
em 06/09/2007 às 18:40h
As vezes nos deixamos ser moldados, somos acostumados, e quando percebemos não aproveitamos o tempo como devidamente deveria ser. Pelo menos sobre nossa concepção de que é aproveitar a vida.
Aproveita o feriado Luma, mas só sobre “os textos” o seu está otimo. Você escreve muito bem. Boa noite e bom feriado.
[ Responder a este comentário]
Filipe
em 06/09/2007 às 18:55h
nao li o texto todo, mas vi que voce ficou impressionada com o mundo sem luz.
nos atolamos tanto com preocupacoes humanas que nao conseguimos nos conectar com o todo.
estranho né?
[]s
Filipe
[ Responder a este comentário]
Netgirl
em 06/09/2007 às 20:08h
Luma,
em primeiro lugar obrigada pelo comentário pois acabou me dando mais gosto ainda pelo ato de blogar!
em segundo lugar, que pena vivermos assim. eu, você, nós todos… nos acostumando com tudo, até com os nossos insuportáveis defeitos, dizendo que somos assim mesmo, ou com o mundo, dizendo que nada tem jeito… como somos tolos, não é?!
hoje você fez uma grande diferença divulgando esse texto, pois ao meu ver, abriu os olhos de todos nós que o lemos!
abraço, aproveite o final de semana prolongado e veja a vida com esses outros olhos!
[ Responder a este comentário]
Rosangela
em 06/09/2007 às 21:52h
Bom que estás tendo um tempinho para ti e para contemplar o mundo em volta. Isso é boom, né???
Carpe diem, Luma!!
[ Responder a este comentário]
Ricardo Rayol
em 06/09/2007 às 23:18h
O tempo é mesmo um senhor cruel, mas é o máximo poder desfrutar de um final de tarde com vagar.
[ Responder a este comentário]
João
em 07/09/2007 às 09:23h
Uou, muito bom o post. Momentos como esses nos lembram que a vida não deveria ser isso, mas outra coisa. E é sempre bom lembrar da Marina Colasanti. Olá! =)
[ Responder a este comentário]
Luma Kimura
em 07/09/2007 às 11:01h
Olá, Filipe!
É engraçado como às vezes nos surpreendemos com fatos que a princípio deveriam ser tão cotidianos, não é?
Obrigada pela visita!
Abraços!!
[ Responder a este comentário]
Luma Kimura
em 07/09/2007 às 11:08h
Oi, Netgirl!
É mesmo uma pena que a gente se acostume e acabe se acomodando com esse tipo de coisas… A vida acaba ficando mais triste e a gente nem se dá conta!!
Obrigada pela visita!
Beijos!
[ Responder a este comentário]
Luma Kimura
em 07/09/2007 às 11:11h
Olá, Ricardo!
Acho que o “segredo” está em não nos esquecermos dele, não é mesmo?
Obrigada pela visita!
Beijo!
[ Responder a este comentário]
Luma Kimura
em 07/09/2007 às 11:18h
Olá, João!!
“Lembrar” já é um bom ponto de partida para “mudar” não é mesmo?
Obrigada pela visita!!
Abraço!
[ Responder a este comentário]
Lu
em 07/09/2007 às 12:45h
Ai, moça, é tão difícil desacelerar, snetir (como você disse) o mundo ao redor, contemplar as boas coisas… esses momentos vão sendo cada vez mais raros conforme a gente “cresce”.
[ Responder a este comentário]