Acessibilidade: o problema (e a solução) é de todos nós, sim!!

Uma noite de terça-feira comum, Yulia pega seu carro e vai ao supermercado. Felizmente desta vez, como nem sempre acontece, a vaga reservada está disponível. O carro de Yulia ostenta um pequeno selo azul, indicando veículos adaptados para deficientes físicos. Meia-hora depois, quando retorna, encontra um outro carro, sem qualquer selo ou indicação, estacionado sobre as faixas amarelas ao lado da vaga reservada, espaço destinado à mobilidade e acesso dos deficientes ao seu próprio veículo. Yulia pede ajuda a um funcionário do supermercado e, pelo alto-falante, o dono do carro é chamado a comparecer ao local estacionado. Ninguém aparece. As pessoas começam a se aglomerar ao redor de Yulia, solidárias, mas também sem saber muito bem o que fazer pois até para uma pessoa a pé o espaço é pequeno. O sujeito aparece quase uma hora depois, cheio de sacolas, e quando pressionado pela atitude pouco cidadã, solta a pérola: Isso não é problema meu!. Um levante de revolta dos que estavam ao redor, um pequeno bate-boca, o fulano entra no carro, bate a porta e vai embora quase cantando os pneus. E tudo mais fica por isso mesmo.
Deveria ser assim?
Você saberia o que fazer nesta situação? Eu confesso, até poucos dias atrás também faria parte da turma que estava alí, ao lado, lamentando sem ação. Nunca havia ouvido nada a respeito das providências que devemos tomar quando nos deparamos com o desrespeito aos espaços reservados para deficientes e - vergonha! - também nunca havia parado para pensar ou me informar. Só soube esses dias, em um papo com um grupo de colegas de trabalho o assunto veio a tona e um dos rapazes relatou um outro caso parecidíssimo, dizendo que basta ligar para o Departamento de Trânsito da cidade, que um guincho pode vir retirar o veículo do local proibido. A ocupação indevida de vagas especiais é considerada infração leve e está sujeita a (uma mísera) multa de R$ 53,20. Denúncias também podem ser feitas diretamente para a Polícia Militar através do 190.
Mas a realidade não é tão “simples”. O acontecimento acima foi relatado pela própria Yulia, uma conhecida minha, de Campinas, que sofreu um acidente de carro há quatro anos e desde então anda em uma cadeira de rodas. Yulia, apesar de tudo, é uma mulher otimista, de bem com a vida. Considera-se uma felizarda: teve condições de adaptar todos os móveis e espaços dentro de sua casa para sua nova situação, mas lamenta que da porta de casa para fora a realidade seja completamente diferente. Ela contou que embora o flagrante também possa ser denunciado por uma pessoa não-portadora de deficiência isso muito raramente acontece, porque ninguém presta atenção na situação de terceiros. Excluindo-se caras como este aí de cima, que não estão nem aí para b*sta nenhuma, a maioria dos que possuem um mínimo de senso, contenta-se em não estacionar nestas vagas e pronto. Pedir a ajuda da Polícia também é complicado. Algumas vezes ela nem sequer atende à chamada e ainda por cima faz com que o solicitante passe por “histérico e exagerado”, outras vezes demora tanto a comparecer ao local que fica impossível fazer um flagrante pois o infrator já deixou o local.
E a coisa toda vai muuuito mais longe. E isso também não é novidade para ninguém.
Coincidentemente, no sábado agora, comprei um exemplar de um jornal daqui da cidade que trouxe uma matéria sobre as barreiras que um cadeirante encontra para se locomover pelas ruas, neste caso aqui em Indaiatuba. A matéria, de Tatiane Quadra, mostra a experiência que a reportagem fez com um cadeirante acompanhando-o pelas calçadas e pelo comércio do centro. O início da reportagem:
Quando um problema não nos afeta é comum não percebê-lo. Por exemplo, você já notou que para entrar na maioria das lojas da cidade é necessário subir um degrau alto? Que há poucas rampas de acesso às calçadas e que a maioria delas não estão adequadas? Ou a dificuldade que é circular em calçadas, com desnível, carros estacionados e até mesmo móveis expostos? Tudo isso pode não oferecer nenhuma dificuldade para a maioria das pessoas, porém, são grandes obstáculos para o trânsito de um deficiente físico, apesar de existirem leis que garantam o direito da acessibilidade.
Eu concordo que seja natural do ser humano não se atentar para aqueles problemas que não o afetem - ou ele pense que não - diretamente, mas isso não pode servir de desculpa para a alienação. Um bocadinho de consciência e espírito cidadão não faz mal a ninguém, muito pelo contrário. Que tal parar dois minutinhos para ler sobre o assunto? Existe muito material disponível por aí. Ler a respeito e agir. Vamos prestar um pouco mais de atenção em como anda a adequação de nossas cidades, engrossar o coro para que estes aspectos sejam resolvidos e pegar no pé dos que desrespeitam os espaços reservados?
Aqui em Indaiatuba é possível encontrar ônibus preparados para o acesso de cadeirantes (embora eu não saiba dizer se a coisa realmente funciona e se os funcionários da viação - motorista/cobrador - estão preparados para atender a estas pessoas), vagas de estacionamento reservadas em praticamente todo o perímetro central da cidade (com a ressalva de que o desrespeito a estas reservadas é constante) e na maioria dos estacionamentos de bons supermercados. Está em andamento um projeto da Prefeitura para construção de rampas nas calçadas do centro da cidade e adjacências (nas esquinas próximas à minha casa, que fica nessa região central, já foram colocadas) e a Prefeitura garante que estão de acordo com as normas exigidas (eu gostaria de ouvir a opinião de um cadeirante a respeito), restam ainda a adequação de desníveis e das rampas que já existiam anteriormente. Tudo isso é um começo mas longe demais ainda do suficiente. Estou procurando, agora, informações sobre o acesso de cadeirantes aos teatros, cinemas e centros de lazer.
Parece-me, que um dos grandes problemas ainda é o comércio local. A matéria do jornal que citei aí em cima ilustra bem isso: degraus para se entrar nas lojas, produtos expostos no meio da calçada, araras e expositores muito próximos uns aos outros, portas estreitas. E a Prefeitura, apesar da lei que regulamenta tudo isso, alega não ter condições de fiscalizar estes estabelecimentos.
Eu venho tentando acompanhar há algum tempo os trabalhos do COMDEFI (Conselho Municipal para Assuntos das Pessoas Portadoras de Deficiência), mas a maior dificuldade é realmente a falta de divulgação: a notícia só aparece quando é “politicamente bonita” e serve como propaganda… Eu gostaria de saber: como são as coisas aí na sua cidade?
Para saber mais:
- Lei Federal N.º 10.098, de 19/12/2000: Estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências.
- Acessibilidade Brasil
- Em Indaiatuba: Lei N.º 3.910 de 31/08/2000: Estabelece normas de acessibilidade às edificações, espaços mobiliários e equipamentos urbanos, em favor de pessoas portadoras de deficiência.
Próximo post: Acessibilidade na Web
Eu tenho que admitir, e não me orgulho disso, sou um bocado relapsa com as questões de acessibilidade no meu blog/site pessoal, um aspecto que preciso consertar urgentemente, mas tenho me ligado bastante nessas questões de acessibilidade na web já há algum tempo: estou trabalhando duro na adequação do site de Indaiatuba (para quem não sabe, trabalho como responsável pela parte técnica do portal e-gov daqui da cidade), mais até do que sites comerciais, é importantíssimo que os sites governamentais mantenham suas informações acessíveis para todos. Escreverei um post sobre isso para breve, falando desse processo de adaptação/adequação e, principalmente, sobre as dificuldades e barreiras que venho encontrando até mesmo aqui dentro da própria Prefeitura. Enquanto isso, vale a pena dar uma espiadinha neste post sobre o assunto que a Lu publicou há alguns dias. Também existe muita informação disponível na web, basta ter o mínimo de interesse.







Lu
em 25/06/2007 às 13:05h
Excelente texto, Luma! Obviamente, não páro em vagas para deficientes de jeito nenhum, mas agora também estou preparada para ajudar caso encontre um deficiente no sufoco por causa de um mal-educado.
Os botões para acesso rápido ao conteúdo e ao menu ficaram ótimos - preciso implantar isso no diadefolga.
Você reforçou o cinza, né? A leitura está fluindo melhor.
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Vingador
em 25/06/2007 às 14:29h
Quer uma foto de um carro do exemplar “Departamento Municial de Trânsito” estacionado em vaga pra deficiente? O carro não tinha identificação de veiculo adaptado, e muito menos o motorista me parecia deficiente (bem bombado por sinal). Na minha “humilde” opinião um Departamento de Transito de m*rda desses, não vai mudar nada em nossa cidade. Tem que começar a punição por esse tipo de gente. Vc tem razão, o problema é de todos mesmo, começando por quem deveria regulamentar….
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Luma Kimura
em 25/06/2007 às 15:45h
Pois então, Vingador, eu concordo plenamente com você: tem que começar por quem deveria regulamentar! Se hoje não acontece assim, temos mais é que botar a boca no trombone mesmo, divulgar flagrantes, exigir explicações públicas dos envolvidos. Você tem mesmo esta foto? Publica! Distribua entre os seus conhecidos para que façam o mesmo!
Pode me chamar de boba-sonhadora, mas eu acredito no “cidadão-fiscalizador”. Um Departamento de Trânsito assim não vai mudar nada, mas se todo mundo unir forças para cobrar, fazer barulho, chamar a atenção para estes abusos, uma hora alguma coisa TEM que acontecer.
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Claudio
em 25/06/2007 às 23:45h
Seu blog é uma “maravilha”. Acesse o JCF para entender, ok?
abs
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Luma Rosa
em 26/06/2007 às 10:54h
Oi Luminha!! Lidar com as igualdades é fácil, bom mesmo é ter consciência de tudo aquilo que nos cerca, aceitar e agir corretamente. Mas sabemos que muitos só entendem quando sentem na pele.
Aqui na minha cidade, o departamento de urbanismo, baixou normas de mudanças em entradas de hotéis, restaurantes, comércio em geral para facilitar a vida de cadeirantes e deficientes visuais. Foram criadas calçadas com sinais de tráfego e algumas outras coisinhas, talvez por ser cidade turística e depender desse público crescente. Muitos idosos que passam a usar cadeiras de rodas e a ter problemas de visão. O constrangimento e desconforto, afasta esse público.
No caso em questão, uma máquina fotográfica registrando o ocorrido seria de grande valia numa ocorrência. A placa do carro deve ser de boa leitura. Não se pode é ter preguiça e deixar pra lá. Temos que tomar as dores, mesmo chamando a atenção do indivíduo, como uma mãe faz com um filho pequeno. quem sabe um dia cria vergonha na cara?
Boa semana! Beijus
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Luma Rosa
em 26/06/2007 às 10:58h
Deixei um comentário aqui. Será que foi para o espaço? Testando…
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Luma Rosa
em 26/06/2007 às 11:00h
aí, Luminha…não sei se o meu comentário foi para a moderação ou o que aconteceu. Depois me explique as suas traquinagens!
Vou aproveitar que estou aqui e arriscar uma pergunta que me fizeram no luz: Você sabe como enviar ao Blogger um arquivo PDF?
Obrigada! Beijus
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Luma Kimura
em 26/06/2007 às 11:29h
Oi, Luma!!!
Os seus últimos comentários tinham caído na moderação sim, coisas do Wordpress… hehe… já estão devidamente aprovados, ok?
Sobre o PDF para o Blogger, nunca ouvi nada a respeito… vou até dar uma pesquisada, se encontrar algo dou um toque!
Beijinhos!
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porquenotecallas
em 18/11/2007 às 08:19h
visitem… fotografem e postem lá..
talvez assim, a gente consiga ensinar cidadania para essas criaturas hostis…
E que Deus tenha piedade dessas almas….
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carla
em 17/09/2008 às 12:45h
Gostaria de saber como obter um selo para cadeirante. Alguem pode me ajudar?
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