E o que restou?
Dói, dói, dói demais quando nos decepcionamos com uma pessoa em quem confiamos cegamente durante toda uma vida. Uma vida! Uma amizade que se acreditava inabalável, inatingível, incondicional. Mas isso é utopia romantizada, não é? É algo que vemos nos filmes, nas mensagens que recebemos aos milhares em correntes de e-mails, na teoria do que deveria ser pelo menos uma pessoa em nossas vidas… Tenho direito a me sentir mal se acreditei em uma idéia puramente utópica?
Passar? Passa. Sei que sim…
Rancor…? Não sei… não me vejo como uma pessoa que guarda rancores e penso assim apenas pelo fato de que não passo meu tempo remoendo sentimentos ruins com relação às pessoas que de alguma forma foram protagonistas dos acontecimentos que me causaram as dores que andei enfrentando nos últimos tempos.
Já leram este pensamento?
“Se eu me magôo e passo a odiar quem foi insensível comigo, esse problema é MEU, não do outro. O outro apenas não correspondeu às minhas expectativas, não deu o colo que eu achava que merecia, não foi o amigo que eu queria que tivesse sido. Ele foi ELE. EU é que queria que ele tivesse agido diferente. Então EU sou o responsável pelo que sinto.” [ Léa Waider ]
De alguma forma concordo com isso. O choque passa, a raiva passa, o aperto no peito passa, mas aqui na cabeça, pensamentos do tipo: “o quanto fui tola” ou “não devia ter criado tamanhas expectativas” e “daqui para frente será diferente” persistem por mais tempo. São sempre eles o último ponto que preciso transpor para enfim sentir superado cada um desses levantes. De mim para comigo mesma. Ninguém tem mais nada a ver com isso.
Conversando com um amigo sobre tudo isso e sobre os rumos que cada um dos membros da nossa antiga turminha vem tomando depois de sucessivos desentendimentos:
“Sinceramente, Lú, eu não concordo… Ninguém passa por essas coisas e continua levando tudo igualzinho quando ‘julga’ ter superado! Uma vez derrubada, a confiança que se deposita nessas pessoas nunca, nunca, nunca mais é a mesma… E se muda, quer dizer que alguma coisa ficou guardada, alguma cicatriz ainda existe… e eu acho que isso não deixa de ser uma forma de guardar rancor…“
O que considera então, meu amigo, que signifique: “rancor”? No dicionário:
rancor | s. m.
do Lat. rancore
s. m., ódio oculto e profundo;
ressentimento.
Se o fato das coisas mudarem, se o fato de passarmos a agir diferente, se o fato de criarmos reservas e defesas significa “guardar rancor”, então tudo bem, admito e concordo: guardo rancores. Alguma coisinha fica, algo lá dentro que vai fazer com que se pense muitas vezes mais antes de ouvir o que as pessoas - em especial determinadas pessoas - têm a nos dizer. Seria esperado de mim que eu conseguisse levar a vida adiante, da mesmíssima maneira, como se absolutamente nada houvesse acontecido para que eu possa me sentir livre de qualquer tipo de peso dentro do peito?
Você me conhece há tantos anos, sabe melhor do que ninguém como eu costumo reagir… Sentiu - e acredito que ainda sente - na própria pele as consequências de suas atitudes comigo, assim como eu ainda sinto as consequências de minhas atitudes contigo, sabe que nada mais funciona da mesma maneira e ainda assim nos damos tão bem… seria possível continuar me sentindo tão bem ao seu lado se o fizesse carregada de mágoas, se me negasse a esquecer os sentimentos ruins que me assolaram algum dia?
♫ Era uma vez uma jovem assustada com o tamanho do mundo…






