Infância Calejada
Isso foi há umas 2 semanas. Uma tarde de terça-feira normal, bastante calma até. Por volta das 15h um colega me pediu para ir à Secretaria da Saúde resolver um probleminha em um computador do atendimento. Coisa simples, seria rápido.
Chegando lá me deparei com uma grande fila em frente à minha sala-destino. Pessoas simples em sua maioria, não sei o que faziam alí e de qualquer forma não era pra isso que eu estava lá… Fui pedindo licença e passando, quando já estava praticamente na porta da sala, um molequinho, com seus 6 ou 7 anos, me fez tropeçar em sua muleta.
Susto. Quase caí. Salto alto e saia justa não ajudam em nada nessas horas.
Olhei para o garoto espantada. Ao lado dele, uma mulher chamou sua atenção:
– Meu filho! Por que você fez isso?
O menininho me encarou bravo:
– A gente já tá aqui esperando um tempão! Ela chegou agora e vai entrar na nossa frente?
Certo. Na hora todo mundo riu. Expliquei pra ele que eu trabalhava ali, que só ia consertar um computador, mostrei meu crachá e as coisas ficaram bem. Depois, de volta ao meu departamento, fiquei pensando no menininho e tentando imaginar a linha de pensamento que o teria levado a fazer o que fez. Tenho certeza de que ele não agiu por maldade pura. Em sua inocência infantil ele apenas quis defender seus direitos. E quanto mais pensava no garoto, mais eu me sentia triste… Que mundo é esse, onde crianças machucadas - ele estava com a perna engessada - precisam ficar sei lá quanto tempo em uma fila de espera pra mendigar uma ajuda?
Para chegar à conclusão que chegou quando me viu passando, ele já deve ter tido outras más experiências do mesmo tipo. Com cerca de 7 anos de idade já é uma criança calejada, aprendendo a se defender com as “armas” que tem em mãos…






