Amigo garçom
Era um cara novinho, tinha 17 anos. Trabalhava como garçom no Jogada de Mestre, um american-bar com mesas de bilhar que eu frequentava todo fim de semana, religiosamente. Uma das melhores coisas da vida, como diria a propaganda “merece uma Kaiser” é garçom-amigo. E ele se tornou nosso amigo, amigo da galera. Sorridente, brincalhão. Vivia fazendo graça, malabarismos com a bandeja, com as garrafas. Tinha jeito mesmo pra coisa, um ótimo equilíbrio. Chegou até a participar de uma olimpíadas de garçons daqui da cidade. Confesso, não fui assistir, e também não lembro da colocação dele. Vi só em vídeo, uma gravação bem amadora mesmo, imagem ruim, iluminação péssima, toda tremida, mas lembro que me diverti muito, só pelo fato do meu amigo estar ali. Uma vez chegou a pintar um clima entre nós. Foi assim, meio de brincadeira. Falei alguma coisa, não me lembro exatamente o quê, tirando um sarrinho dele. Ele chegou bem perto, se fazendo de bravo e eu encarei. Face a face. Aquelas cenas de filme, que de repente parece que todo o barulho do bar ao redor não existisse mais. A galera toda achou que ia sair um beijo. Platéia atenta. Não rolou. Sei lá, fora de esquema. Aí um dia um amigo nosso me telefona: “ - Você soube? Nosso amigo garçom morreu em um acidente ontem de madrugada…” Choque. Não há qualquer outra palavra que defina melhor o que a gente sente nessa hora. Eu só sei que hoje eu não consigo mais me recordar o que fiz depois que desliguei o telefone. Sei que não pude nem mesmo chorar. Tinha a sensação de que ele se decepcionaria comigo se fizesse isso. Meu amigo merecia sorrisos, não lágrimas. Estranho, claro, mas era uma sensação real. Ele era alegre, queria alegria. Também não fui ao velório, não porque não quis, mas quando me deram a notícia ele já tinha sido levado pela família para o Paraná. No outro dia saiu a notícia do acidente no jornal da cidade. Recortei e guardei. Tenho guardado até hoje. por muito tempo ficou dentro de mim um ódio mortal do cara que naquela madrugada dirigia bêbado o Kadett preto que atropelou a Mobilete do meu amigo. Mas até isso acabou passando. Acredito, sinceramente, que ele também não gostaria que eu carregasse isso comigo pro resto da vida.
Hoje, não sei porquê, de repente me lembrei dele. Do meu amigo. Do amigo da galera. Dele, ficaram algumas fotos, muitas boas lembranças. E a saudade de um tempo maravilhoso do qual ele teve um papel com toda certeza muito especial.






