De repente me dei conta de que estava rangendo os dentes, o maxilar já chegava a doer. Os gritos vinham da cozinha, feriam meus ouvidos e se misturavam com a deseperadora sensação de impotência. Ouvi ameaças físicas. Os limites já se perderam em algum lugar do passado. Corri.
Meu pai, minha mãe e minha irmã discutiam aos berros, prestes a partirem uns para cima dos outros. O que eu podia fazer? Gritar mais alto que eles?
Minha irmã estava vermelha, descabelada, chorando. Saiu gritando. Meu pai veio atrás:
- Repete isso se você tem coragem! Repete!
Fixei os olhos no prato que ele tinha nas mãos, pronta para segurá-lo caso perdesse de vez o controle. E tive medo… Medo de que ela realmente o enfrentasse, medo de que ele realmente jogasse aquele prato, medo de as coisas realmente explodissem de uma vez por todas…
O pivô desses discussões em casa normalmente é meu pai, que perde o controle por coisinhas e é extremamente orgulhoso nesses casos. Houve uma época em que as discussões eram comigo ou por minha causa. Eu mudei, me tornei uma pessoa mais serena. Agora é com minha irmã. Ele, parece não ter mudado nada. Culpado? Não, não é o que estou querendo dizer… De vez em quando paro pra pensar e sinto que meu pai não faz por mal, é apenas um homem orgulhoso, que carrega algumas frustrações e não sabe muito bem como lidar com as coisas que ele mesmo sente…
Em meio a tudo, o principal “alvo” sempre foi minha mãe. Fico triste quando percebo a pessoa machucada e muitas vezesamargurada que ela se tornou e mais triste ainda por não conseguir fazer nada para mudar isso…
Desde que me entendo por gente não me lembro de ter visto meus pais vivendo um casamento feliz. O período em que comecei a “entender” algumas coisas foi também a época em que comecei a ter a percepção do quão diferente era a realidade das minhas fantasias infantis.
Já houve fases em que as discussões foram bem piores. Aconteciam todos os dias, o tempo todo. O clima em casa era constantemente pesado, ao ponto de dificultar a respiração, tal a intensidade do ar carregado. Hoje, não sei dizer se melhorou, ou se sou eu quem passa mais tempo trabalhando e studando, mas fato é que no fundo sempre estou com a sensação da bomba-relógio que pode explodir a qualquer momento. Então, vivemos o momento “feliz” com o pé atrás, até que a próxima explosão aconteça e os ecos daquela fase negra se façam ouvir outra vez…
Nightwish - Gethsemane