Livro: Lolita, de Vladimir Nabokov

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Capa: Lolita, de Vladimir Nabokov Lolita é uma das obras mais polêmicas da literatura contemporânea, foi publicada pela primeira vez em 1955 depois de ter sido recusada por diversas editoras. O romance, narrado em primeira pessoa por Humbert Humbert, conta a obsessão do personagem-narrador por sua enteada de 12 anos, a quem chama Lolita.

Humbert é um professor de literatura de meia-idade que deixa a França depois de um casamento mal sucedido e parte em busca de uma nova vida nos Estados Unidos. Lá, ele aluga um cômodo na casa onde vivem a viúva Charlotte Haze e sua geniosa filha. Logo de cara ele se sente atraído pela garota – que, de sua parte, também se insinua para ele. Durante um acampamento que manteve Lolita ausente por um período razoalmente longo, Charlotte se declara a Humbert e pede-lhe que, se seus sentimentos não forem correspondidos, ele deixe a casa. Atemorizado pela ideia de se afastar da menina, Humbert aceita o casamento, mas pouco tempo depois Charlotte descobre seu diário onde estão registrados seus desejos mais pervertidos acerca de Lolita. Transtornada, Charlotte sai em disparada pela rua e morre atropelada, deixando o caminho totalmente livre para Humbert.

Humbert escreve seu relato da prisão, onde aguarda julgamento, e desde as primeiras páginas se descreve como um pervertido. Ele não procura realmente se justificar, tal como não demonstra arrependimento por seus atos, mas tampouco permite que se crie, ao seu redor, uma efígie de ares monstruosos. O tom provocativo consegue chocar, ao mesmo tempo em que denota a “normalidade” da situação para um homem que já convive há tanto tempo com seus desvios. Lolita, por sua vez, não é retratada como uma simplória vítima – óbvio que aqui pesa o ponto de vista do narrador – mas como uma garota consciente de ter nas mãos o poder para explorar a obsessão e o ciúme de seu algoz. Até que ponto uma menina de 12 ou 13 anos pode ser considerada inocente?

Não foi uma leitura fácil. O tema pesado, a obcecação levada ao extremo e a minha incapacidade de compreender tal tipo de perversão, fizeram com que eu mantivesse, o tempo todo, o pensamento do quanto tudo aquilo me soava repugnante. Narrativa crua, carregada e muito bem conduzida. Nesse ponto percebi a genialidade de Nabokov, sua habilidade em causar tamanha angústia, ao mesmo tempo que prende o leitor com uma sequência intrigante, não permite que abandonemos o livro pela simples curiosidade de saber o que vai acontecer.

Minha posição primária ante a temática do livro sempre foi imaginar Humbert como um depravado sem escrúpulos corrompendo crianças sexualmente. O romance não me fez compreende-lo, mas me fez perceber as muitas camadas e nuances de uma situação que não pode ser, por qualquer ângulo, simples. Material inesgotável para muitas discussões. Dica perfeita para uma pauta no clube do livro (viu, Drika? rs).

No mais, quero acrescentar que – nesta edição brasileira, da Biblioteca Folha – me incomodou bastante o fato de muitas frases em francês, que não podiam ser simplesmente ignoradas ou entendidas pelo contexto, não terem tradução, sequer uma nota de rodapé. Por diversas vezes perdi totalmente o ritmo da leitura quando era obrigada a recorrer a um dicionário e, convenhamos, isso é muito chato…

Este post também faz parte do Desafio Literário 2012 e a tarefa para o mês de fevereiro é ler livros cujos títulos sejam nomes próprios. Leia também as resenhas de Marina, de Carlos Ruiz Zafón, Pedro Páramo, de Juan Rulfo, Cândido, de Voltaire e Helena, de Machado de Assis.

Lolita

Nabokov, Vladimir

  • Editora: Biblioteca Folha
  • Categorias: Literatura Estrangeira, Clássico
  • Título Original: Lolita
  • Avaliação: ★★★☆☆

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Comentários (5)

  • Eu acho que todas as edições mantém as frases em francês. Não sei porquê, mas também me incomodei com isso.

    Ah, respondi tuas dúvidas lá no blog :)
    beijo!

    21/02/2012 - 16:41

    Responder

  • Ótima escolha. Eu li “Lolita” logo que a Folha lançou o título e as partes de francês também me incomodaram bastante. Acabei pulando esses trechos para continuar a leitura, mas notas de rodapé teriam sido muito bem-vindas. É horrível que alguém possa considerar uma menina de 12-13 anos como culpada, mas a narrativa de Nabokov é extremamente envolvente, e não dá para desgrudar do livro.
    bjo

    21/02/2012 - 17:07

    Responder

    • Pois é, Michelle… incomoda muito mesmo. Até tentei pular essas partes, mas algumas vezes o entendimento ficava comprometido por causa disso e eu era obrigada a recorrer ao dicionário (e algumas vezes nem assim resolvia, rsrs).

      29/02/2012 - 15:19

      Responder

      Luma Kimura

  • Este é um dos meus livros preferidos, pela história, personagens, psique e qualidade da escrita mesmo, não é em vão o fato de ser um clássico!
    Você já assistiu às duas adaptações cinematográficas? A interpretação da obra nas telas é muito curiosa, colocam Lolita como instigadora de tudo, mesmo isso sendo um fato pouco “aceitável” para a sociedade, o primeiro filme feito mesmo é bem antigo, em P&B. Vale a pena ver os dois, para comparar as interpretações. A minha visão em relação ao livro é muito parecida com a sua. {:
    Já sobre a edição não posso opinar, a que tenho é uma bem antiga, em capa dura.

    21/02/2012 - 17:32

    Responder

    • Oi Luana!

      Ainda não assisti a nenhuma das adaptações (sempre que posso, dou preferência para ler o livro primeiro). Valeu as sugestões, vou procurar os filmes. ;D

      29/02/2012 - 15:21

      Responder

      Luma Kimura

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