Livro: Cândido, de Voltaire

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Capa: Cândido, de Voltaire Engraçado como nem mesmo uma “experiência” relativamente longa com leituras é capaz de minar completamente com algumas ideias pré-concebidas enraizadas na mente. Pensar na obra literária de Voltaire sempre me suscitou a imagem de livros de linguagem rebuscada e difícil compreensão. Por quê? Não sei, pura impressão. Fui encarar a leitura de Cândido com o espírito preparado para tal e qual não foi a minha surpresa ao me deparar com um texto completamente acessível que em absolutamente nada deixa a perder o riquíssimo conteúdo.

O livro narra as desventuras do personagem-título em uma errática viagem por diversos países do mundo. Cândido, um jovem rapaz de “juízo reto e espírito simples”, nascido e criado em um belo castelo na Vestfália, levava uma vida “perfeita”, recebendo a orientação de seu preceptor, Pangloss, a quem muito admirava, até que, por um infeliz desentendimento com o senhor do castelo, acabou sendo expulso do lugar a pontapés. Desnorteado pela súbita quebra em sua edênica rotina, segue caminhando sem rumo e é aí que começa a sucessão de acontecimentos que vai pôr à prova os ensinamentos de seu caro mentor.

O tom é deliciosamente sarcástico, pastelão a um estilo ligeiramente caricato, esconde pesadas críticas sob uma discreta aparência de ingenuidade. A paródia aos romances de aventura – e a seus mais frequentes clichés – é clara desde o princípio, há uma sucessão convulsiva de cenários, grandes movimentações, feitos inacreditáveis e muita, muita desgraça. O choque do mundo imaginado por Cândido e aquele que realmente encontra cria situações, no mínimo, tragicômicas.

Voltaire, por Nicolas de Largillière

Voltaire, por Nicolas de Largillière
Domínio Público

É bem verdade que só pude ter uma noção melhor da profundidade da obra depois de concluída a leitura, quando fui pesquisar um pouco mais a respeito do próprio autor e das ideias que ele combatia ou defendia. Eu me diverti com a leitura, mas depois é que fui me dar conta do quanto o trabalho é genial.

Se as duras críticas à Igreja e às tradições religiosas são bastante conhecidas na obra de Voltaire, em Cândido o ataque aponta diretamente ao pensamento do otimismo de Leibniz, que defendia a ideia de que, uma vez que o universo tenha sido criado por Deus e que a bondade divina não pode ser afetada pela existência do mal, a conciliação do máximo de bem e o mínimo de mal torna nosso meio o “melhor dos mundos possíveis”. No livro a teoria ganha voz nos ensinamentos de Pangloss e a desilusão de Cândido se avoluma com o testemunho e a vivência de tantos e tantos reveses pelo caminho.

É um livro para muitas releituras e perfeito para discussões, que me fez ficar pensando, mais uma vez, que a leitura dos grandes clássicos realmente vale a pena…

Este post também faz parte do Desafio Literário 2012 e a tarefa para o mês de fevereiro é ler livros cujos títulos sejam nomes próprios. Leia também as resenhas de Marina, de Carlos Ruiz Zafón e Pedro Páramo, de Juan Rulfo.

Cândido

Voltaire (François-Marie Aroue)

  • Editora: Abril (Coleção Clássicos)
  • Categorias: Literatura Estrangeira, Clássico
  • Título Original: Candide, ou l’Optimisme
  • Avaliação: ★★★★☆

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Comentários (6)

  • Li esse livro ainda bem jovem Luma, você soube resenhar bem o que o livro é. Sempre comento com meus amigos esse livro, muita gente não imagina o que Voltaire escrevia.

    14/02/2012 - 18:40

    Responder

    • Pois é, Phil… acho mesmo que muita gente não tem ideia nenhuma sobre o trabalho de Voltaire… e da minha parte já estou espalhando recomendações para tudo quanto é amigo! rs

      29/02/2012 - 15:09

      Responder

      Luma Kimura

  • Gente, parece ser muito legal! Não sei quase nada sobre Voltaire, e também nunca me interessei, mas amo paródias e críticas ao mundo perfeito que costumamos criar. Darei uma chance a esse livro, valeu mesmo pela dica!

    14/02/2012 - 18:42

    Responder

  • Eu também tinha a sensação de que seria uma leitura pesada e de difícil compreensão, mas me vi completamente envolvida pelo livro. Ótima resenha, e também tive que ser a respeito sobre o otimismo de Leibniz para entender. E o final é simplesmente fantástico, carregado de sarcasmo. Adorei, e vou ler de novo, certamente. Pena que li ano passado, e não para o desafio.

    14/02/2012 - 19:17

    Responder

  • Também estou lendo Cândido!!!!!!!!!!!!!! :)

    15/02/2012 - 17:37

    Responder

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