Filme: Crianças Invisíveis

Crianças Invisíveis

Crianças Invisíveis é um projeto cinematográfico coletivo idealizado pelos produtores italianos Chiara Tilesi, Stefano Veneruso e Maria Grazia Cucinotta, que reúne 7 curtas dirigidos por 8 diretores de diferentes países (Brasil, Burkina-Faso, China, Estados Unidos, Inglaterra, Itália e Sérvia-Montenegro), entre eles a brasileira Kátia Lund.

Patrocinado pelo Ministério das Relações Exteriores Italiano, com verbas revertidas para a UNICEF e o apoio da WFP, o filme traz temas como o trabalho infantil, a guerra e a criminalidade, enfatizando sem rodeios a posição negligente dos adultos e a culpa coletiva pela dramática situação exemplificada através destas pequenas histórias.

Cada segmento traz bem evidente as características já consagradas de seus diretores e os temas foram lançados ao acaso – nenhum dos diretores teve contato com outro durante a produção, com liberdade total para falarem e agirem a seu modo tendo como único direcionamento a idéia de falar sobre crianças de seus próprios países.

Tanza, o primeiro segmento – e primeiro tapa na cara – do longa, foi filmado em Burkina Faso pelo diretor argelino Medhi Charef, mas na história é ambientado em algum lugar definido simplesmente como África, um continente onde guerras civis entre etnias inimigas se espalham por todos os lados, colocando armas na mãos de milícias infantis e juvenis. Tanza é um garoto de 12 anos a quem é dada a missão de colocar, em uma escola, uma bomba que será detonada na manhã seguinte, no momento em que várias outras crianças estarão assistindo a última aula de suas vidas.

Blue Gipsy, do iugoslavo Emir Kusturica traz uma história que tem como pano de fundo a temática dos reformatórios para menores infratores, mas foca-se, principalmente, nas atitudes dos adultos dentro e fora destas instituições com relação aos internos. Uros é um menino que está para ser liberado da casa de detenção, mas não tem certeza de que realmente quer esta ‘liberdade’ quando se recorda do mundo de oportunistas sem escrúpulos que vai reencontrar lá fora. Prefere a estrambótica segurança de sua situação carcerária, porque sabe que seu próprio pai, um alcóolatra violento que explora crianças para trocar o dinheiro por bebida, vai obrigá-lo novamente a cometer roubos.

Jesus Children of America, episódio dirigido por Spike Lee, conta a história de Blanca, uma menina negra de 13 anos, que sofre com a hostilidade e discriminação de seus colegas de escola pela condição de filha de pais drogados e portadores do HIV. Em um claro reconhecimento da intolerância que a própria intolerância provoca, ele mostra cenas onde os pais dos colegas de Blanca aparecem discutindo com a diretora da escola, exigindo a expulsão da menina. Subjulgados pela fraqueza, o casal viciado ganha a compaixão do telespectador quando se apresentam pais que amam a filha, mas são escravos impotentes de sua condição.

Bilu e João, dirigido pela brasileira (co-diretora de “Cidade de Deus”) Kátia Lund, retrata São Paulo pelo ponto de vista de duas crianças que sobrevivem do trabalho de recolher papelão e latas de alumínio nas ruas, aprendendo e se adaptando à postura friamente oportunista dos adultos com quem têm que lidar. Um dos aspectos mais interessantes neste curta é a maneira como a diretora consegue, sem cair na choraminguela forçada, mostrar a “visão criança” destes pequenos oprimidos na grande metrópole, que mantêm a capacidade de sonhar ainda que todas as condições de seu ambiente sejam contrárias a isso.

Jonathan, dos diretores ingleses Jordan e Ridley Scott, é a única história que parte de um adulto. O personagem central é um fotógrafo de guerra (David Thewlis, o Prof. Lupin de Harry Potter) que vive assombrado pelo trauma causado nas situações de horror que retratou e, em busca de alívio, embarca em uma fantasia onde torna-se novamente um menino. É um epísódio denso, impele ao lado da reflexão, e o mais atípico da série.

Ciro, o sexto curta da série, dirigido pelo italiano Stefano Veneruso, expõe a história de um adolescente que fugiu de uma família desestruturada e pais omissos passando a viver de roubos nas ruas de Nápoles. É mais uma sequência que enfatiza as atitudes dos adultos dentro da situação. Há uma cena, por exemplo, que mostra um executivo que tem seu Rolex roubado discursando em plena praça contra as crianças, em confronto com uma mulher que apregoa: presos, devem ser, os que fazem as crianças roubar.

Song Song & Little Mao, o último curta da série, já começa surpreendendo pela delicadeza. Dirigido por John Woo, reconhecido pelos seus filmes de ação e pancadarias, a história explora a questão da diferença social mostrando a vida de duas garotinhas com a mesma idade: Song Song, de família muito rica, que tem todas as bonecas que o dinheiro pode comprar mas convive com pais frios e negligentes e Little Car, órfã, criada com muita dificuldade pelo “avô”, um catador das ruas que a encontrou no lixo e que precisa, depois da morte dele, vender flores nas ruas para sobreviver. Mesmo tão distantes e tão diferentes, o elo que liga as duas pequenas é comum: o desejo de serem felizes.

Crianças Invisíveis - Ilustração

O conjunto todo emociona, faz chorar, incomoda, cutuca. Mais do que uma mensagem sobre crianças, o filme fala sobre adultos: uma crítica clara e dura.

Em tempo: editei o post “algumas-várias-vezes” tentando eliminar comentários que pudessem ter o efeito de spoillers para aqueles que ainda não assistiram ao filme, mas ainda publicarei um artigo mais completo e analisado de cada segmento no Zine.

Em tempo II: sim, eu sei que já prometi o Zine faz muito tempo, mas o projeto andou empacado por conta de “forças maiores” =P. Este ano, prometemos – a equipe do Zine e eu: vai sair!

Crianças Invisíveis

All The Invisible Children (2005)

  • Direção: Mehdi Charef, Emir Kusturica, Spike Lee, Kátia Lund, Jordan Scott & Ridley Scott, Stefano Veneruso e John Woo.
  • Origem: França/Itália
  • Gênero: Drama
  • Elenco Principal: Andre Royo, Coati Mundi, David Thewlis, Francisco Anawake, Goran R. Vracar, Hannah Hodson, Hazelle Goodman, Jake Ritzema, Kelly Macdonald, Lanette Ware, Maria Grazia Cucinotta, Rosie Perez, Vera Fernandez, Wu Jiang, Zhao Zhicun

The Pretenders - Angel Of Morning

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