As chuvas, a convocação, o documento perdido
Dias de muita chuva e temperaturas amenas para os padrões do nosso verão tropical. Como não acreditar que 2012 nasceu para mim? Amo esse tempinho chuvoso, essa luz difusa, esse clima ligeiramente mais introspectivo. Um bom livro nas mãos e o barulho da chuva sobre o telhado: há momentos em que não preciso de mais nada.
O mês começou bem tranquilo, tal como desejei, tal como ainda espero que o ano se desenrole. Aproveitei o quanto pude os últimos dias das férias do namorado aqui no Brasil e, depois de todos os abusos – deliciosos, mas extenuantes – das festas de final de ano, deixei-me escorregar suavemente para os braços morninhos de uma rotina branda.
Ainda sinto o cansaço de provações passadas, portanto tenho procurado manter um ritmo moderado. Concentração no trabalho para evitar acúmulos, mas sem exageros para evitar estresse. Leitura (óbvio), alguns filmes, caminhadas (quando a chuva permite), meditação, journaling e, inspirada pelas leituras do Desafio Literário, algumas aventuras na cozinha. Ainda sinto que não consigo me organizar o suficiente para dedicar uma fatia do meu tempo a cada uma das coisas que tenho vontade de fazer, mas… devagar, sigo colhendo fiapos de serenidade.
É claro que o mundo não pára esperando que encontremos nosso ritmo, as coisas continuam acontecendo. Há alguns dias fui convocada para assumir um novo cargo – Especialista em Tecnologia da Informação – na Prefeitura, o 3º nestes 10 anos e meio (!!) de funcionalismo. No geral as coisas não mudam, prestei um novo concurso no ano passado apenas para assumir um cargo de nível superior e entrar para o plano de carreira, continuo no mesmo departamento e, pelo menos por enquanto, desempenhando as mesmas funções.
No mais, estou a pé. Não, não vendi, nem bati o carro, apenas… bem, perdi o documento.
Não sei se acredito em coincidências, não sei se acredito na velha máxima que prega “uma zica puxa outra”, fato é que estou evitando usar o carro por causa de uma “série de coincidências zicadas”. Quando minha irmã usa o carro costuma deixar o documento na gavetinha onde guardamos as chaves, mas, justamente naquele dia, ela esqueceu. Eu costumo procurar pelo documento quando vou levá-la até a rodoviária, mas desta vez não me lembrei porque justamente naquele dia ela conseguiu uma carona. Como não poderia trazê-lo de volta, ela mandou para cá por Sedex, mas justamente naquele dia um grupo que andava roubando carteiros na cidade atravessou o caminho do “meu” carteiro.
Enquanto aguardo os trâmites burocráticos para conseguir um novo documento o carro permanece quietinho na garagem. Vamos lá, andar faz bem.
Sei que muitos de vocês vão dizer que eu poderia estar usando o carro assim mesmo, que a probabilidade de me pararem para pedir os documentos é mínima, mas vejam só: cagaço é a palavra. Com tanta zica, uma atrás da outra, você duvidaria que eu seria parada na primeira esquina, justamente pelo guarda mais irredutível da corporação?
Fevereiro já nos abocanhou e eu ainda não tenho planos concretos para o mês. Seria repetitivo demais dizer o quanto me assusto com a ligeireza cada vez mais impetuosa do tempo?
Leituras de Janeiro
- Fama à Mesa, de Fabiano Dalla Bona (desafio literário)
- Como Água para Chocolate, de Laura Esquível (desafio literário)
- The Warlord Chronicles: Excalibur, de Bernard Cornwell (kindle book)
- Leite Derramado, de Chico Buarque
- Clube do Jantar, de Jessie Elliot (desafio literário)
- Conforte-me com Maçãs, de Ruth Reichl (desafio literário)
- Mil Dias em Veneza, de Marlena de Blasi (desafio literário)
- As Brumas de Avalon: O Gamo-Rei, de Marion Zimmer Bradley (releitura)
- O Poderoso Chefão, de Mario Puzo
- Criança 44, de Tom Rob Smith
- As Brumas de Avalon: O Prisioneiro da Árvore, de Marion Zimmer Bradley
- Marina, de Carlos Ruiz Zafón (desafio literário)
Minha lista completa de livros e links para as respectivas resenhas aqui.
Filmes de Janeiro
- Os Smurfs (The Smurfs, 2011)
- O Segredo de Kells (The Secret of Kells, 2009)
- O Escafandro e a Borboleta (Le Scaphandre et le Papillon, 2007)
- O Túmulo dos Vagalumes (Hotaru no Haka, 1988)
- Uma Cilada para Roger Rabbit (Who Framed Roger Rabbit, 1988)
- A Noiva de Frankenstein (Bride of Frankenstein, 1935)
Minha lista completa de filmes e links para as respectivas resenhas aqui.
Stone Temple Pilots - Big Bang Baby
Livro: Mil Dias em Veneza, de Marlena de Blasi
Marlena de Blasi, americana de meia idade, trabalhava como crítica de gastronomia e jornalista, era chef e sócia de um café e já tinha dois filhos adultos quando conheceu um “estranho” durante uma de suas viagens anuais a Veneza. Poucos meses depois vendeu tudo o que tinha e se mudou para a Itália a fim de se casar com ele e iniciar uma nova fase. Mil Dias em Veneza é o relato autobiográfico dessa impetuosa reviravolta na vida da autora e de sua adaptação ao cotidiano de uma cidade pela qual é completamente apaixonada.
O amor de uma mulher e um homem, o amor por uma cidade cercada por um misticismo de tradição romântica, o amor pela boa comida. Sim, é uma bela história de amor, não nego os méritos de tudo isso, mas também não consigo dizer que o livro tenha me cativado completamente.
Não sei se consigo me fazer entender, ainda não tenho minhas impressões dispostas com muita clareza para mim mesma, a questão é que o tempo todo, por mais que a própria Marlena estivesse tentando se justificar e dizer o contrário, senti que ela estava se anulando. Deixar tudo para trás em nome do amor é lindo, fazer concessões faz parte de um relacionamento saudável. Mas qual é o limite?
Marlena e Fernando
© Arquivo de Marlena de Blasi
Talvez o ponto seja apenas este, a autora passa tanto tempo tentando explicar porquê está abrindo mão disto, disso e daquilo, tantas páginas demonstrando sua abnegação em prol do “momento difícil” pelo qual seu amado está passando, que a impressão que tive é de que ela precisava, acima de tudo, convencer a si mesma. Fico feliz que no final as coisas tenham dado certo para Marlena e Fernando, que eles tenham encontrado o equilíbrio e estejam juntos até hoje, vivendo nos lugares mais lindos da Itália.
Alguns trechos do livro são inspiradores, Marlena reflete sobre mudanças de um jeito sereno e ao mesmo tempo corajoso – embora nem sempre faça sentido com suas próprias atitudes. Verdadeiros insights foram anotados no meu caderninho de capa vermelha. Outros trechos, em compensação, conseguem ser absolutamente enfadonhos. Exercício de força de vontade para evitar a “leitura dinâmica” e o salto direto por diversas páginas.
Não é bem o tipo de leitura que realmente me empolga, mas é leve, dá para encarar numa boa. Opção para aquelas tardes de domingo cinzentas e chuvosas, quando tudo o que queremos é um cantinho sossegado e um livro morninho, para afagar de leve o coração.
Mais um livro lido para o Desafio Literário 2012 cujo tema para janeiro é Literatura Gastronômica. Leia também as outras resenhas já publicadas este mês: Fama à Mesa, de Fabiano Dalla, Como Água para Chocolate, de Laura Esquivel, Clube do Jantar, de Jessie Elliot e Conforte-me com Maçãs, de Ruth Reichl.
Mil Dias em Veneza
Blasi, Marlena de
- Editora: Sextante
- Categorias: Biografia e Memórias
- Título Original em inglês: A Thousand Days in Venice
- Avaliação:





Visions of Atlantis - Lost
Livro: Leite Derramado, de Chico Buarque
Enquanto está convalescendo em um leito de hospital, um homem já bastante velho entrega-se a um longo e intermitente monólogo onde conta a história de sua família – uma tradicional família brasileira – desde os ancestrais vindos de Portugal até o tataraneto, típico garotão do Rio de Janeiro contemporâneo.
Uma saga familiar marcada pela decadência social e financeira, contada sob um ponto de vista tão pessimista quanto irônico, em ares tragicômicos que salientam aspectos relacionados ao racismo, à hipocrisia social, à corrupção e à delinquência, sobre o pano de fundo de diversos fatos históricos brasileiros.
É interessante a maneira como o livro foi estruturado. A narrativa é toda em primeira pessoa, apoiada unicamente nas falas do velho, e não segue uma ordem cronológica ou qualquer tipo de sequência organizada, ao invés disso encontramos buracos, contradições, variações de um mesmo fato, repetitivas obsessões e até mesmo aquelas lembranças que ele reluta em comentar mas são possíveis de se captar nas entrelinhas.
A desarticulação exemplificou bem o que poderia ser a memória de um homem de idade avançada e deu uma plausível impressão de espontaneidade, mas fez com que eu tivesse bastante dificuldade de acompanhar alguns trechos e acabasse achando a coisa toda um bocado cansativa. De qualquer forma ainda é uma leitura rápida, apesar da saga se estender por pelo menos dois séculos o livro não tem mais do que 200 páginas.
Foi uma leitura de ocasião, não é bem o tipo de livro que realmente me empolgue, mas valeu a experiência, especialmente porque eu nunca tinha tido algum tipo de contato com o trabalho literário de Chico Buarque.
Leite Derramado
Buarque, Chico
- Editora: Companhia das Letras
- Categorias: Literatura Nacional, Romance
- Avaliação:





Avantasia - Blizzard on a Broken Mirror
Livro: Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo
Em Olhai os Lírios do Campo acompanhamos a história de Eugênio Fontes, que teve uma infância difícil, marcada pela pobreza e pelas humilhações. Determinado a se livrar da vergonha da miséria de sua família, ele consegue, com muito sacrifício, formar-se em Medicina, mas na ânsia de alcançar uma posição na sociedade ele se casa por interesse com Eunice, em detrimento de seu verdadeiro amor por Olívia.
Meu palpite é de que este é um livro cuja experiência de leitura vai tomar proporções e características diferentes dependendo do estado de espírito do leitor. Consigo me imaginar profundamente tocada se eu o tivesse lido, por exemplo, em meados de 2010, época em que, por uma série de motivos que não vêm ao caso agora, eu andava equilibrando minhas emoções sobre uma corda bamba, debatendo comigo mesma questões bastante próximas às apresentadas no livro.
Não foi bem o caso agora. Vi no romance um painel social típico, com mensagens claras sobre os efeitos do capitalismo sobre os homens, repleto de personagens marcados pelos mais antigos conflitos humanos que representam papéis públicos enquanto lutam internamente para conciliar os desejos do coração e o medo da mediocridade. Um panorama de vastas possibilidades dramáticas, melancólico e belo, forte e ao mesmo tempo delicado, mas… bem, um pouquinho sentimentalista demais para meu gosto e meu momento pessoal, especialmente na primeira parte.
No mais, achei bem interessante a maneira como Érico Veríssimo construiu a narrativa, separando-a em duas partes e navegando entre o tempo presente e o passado, de maneira que ficam evidentes os contrastes de cada momento na vida de Eugênio.
Mais do que um romance de apelo emocional, Olhai os Lírios do Campo traz uma forte crítica ao arranjo social que encoraja futilidades, status e riquezas, e gera tanta hipocrisia nos relacionamentos.
Muito obrigada, Dri!
E este foi mais um livro lido para o item 25 da minha lista de 101 coisas e esta fpo a recomendação da Dri Ornellas, do blog A Menina do Fim da Rua. A Dri nem me “conhecia” há tanto tempo assim, mas foi um doce de pessoa e logo se prontificou a me ajudar.
Muito obrigada pela colaboração com o meu projeto, Dri!
Olhai os Lírios do Campo
Veríssimo, Érico
- Editora: Companhia das Letras
- Categorias: Literatura Nacional, Romance
- Avaliação:





Avantasia - Runaway Train
















































